Jogo da fé
Bilhete para acreditar em si
Toda tentativa de relatar um acontecimento é uma tentativa que fracassa.
Parece uma coisa meio exagerada a que eu quero dizer aqui, mas não é. É um fato. Ao escolher as palavras, quem escreve está, na verdade, refazendo a história pela perspectiva e vontade íntima. Cada palavra escolhida está mais próxima de uma invenção do que, de fato, de um relato.
Essa é uma verdade: nenhuma história transcrita em texto é um relato. E isso é uma ideia libertadora e maravilhosa para quem gosta de escrever. Por vezes, o que queremos quando tentamos relatar algo é nos aproximar ao máximo do acontecimento, sermos fiéis aos fatos. Mas o conjunto de escolhas feitas no instante em que se escreve a tentativa de um relato desmancha essa possibilidade.
Ainda chamamos de relato porque acreditamos que nos aproximamos ao máximo da história que queremos contar, ou da lembrança que temos dela. Mas até a lembrança é, no máximo, uma tentativa de lembrar e não uma lembrança concreta. É uma construção, uma criação que fazemos com os pedaços de histórias que conseguimos reter.
Adoro pensar sobre isso, pois me liberta ainda mais para fazer literatura.
Ontem meu amigo me ligou. Eu posso escrever a hora exata da ligação, pois essa informação está no histórico do aparelho em que ele me chamou. E também posso mudar a hora. Quem vai saber? Posso escrever sobre o timbre da voz dele quando eu atendi, uma voz doída, enquanto ele me contava sobre suas dores nas costas, sua mais nova injúria. Fez um lamento sobre a idade, disse que era coisa que todo mundo um dia ia sentir, querendo ou não. Coisa que eu já sinto há alguns anos, uma pressão forte na lombar, e ainda nem posso me chamar de velho. Ou posso? Me disse que já tinha tomado remédio, que ia fazer uma imagem na sexta… Mas será que foi mesmo assim que conversamos, uma conversa mole sobre as dores? Será que ele não me disse outras coisas? Me disse. Conversamos mais sobre política do que sobre a lombar. A diarista aqui de casa aspirava o chão com um aspirador tão barulhento que parecia discordar do que eu dizia a ele…
Escrever é isso: um jogo que a gente vai jogando, enquanto escolhe as palavras que entram e que saem. E o que fica de fora da história conta histórias tão importantes quanto as palavras de dentro.
O que é o relato quando se pensa em texto? O que é invenção? Como traduzir o que eu vivi? Como escolher as palavras perfeitas para contar a história perfeita? O descontrole sobre o que cada um vai ler no texto também afasta ainda mais a história escrita de um relato. É tudo ficção.
O que existe, na verdade, quando escrevemos, é uma história bem contada ou não. Saber o que fazer com as palavras, com os jogos de palavras, com as construções das frases, é o que garante que a história existirá. Sendo baseada em realidade ou uma ficção. É assim que o leitor acredita num texto, lendo boas escolhas. E o leitor sempre vai acreditar quando as escolhas forem bem feitas.
Por isso, escrever crônicas, por mais que se aproxime da vida do autor ou da autora, também é um jogo de ficção. Ou de escrita literária. Fazer com que o leitor acredite que as crônicas foram vividas por seus criadores deve ser o objetivo de quem escreve. É uma fé que depositam em nós. É um jogo.
Mas quando se escreve com medo, ou seja, com insegurança, o leitor percebe, sente, duvida… É com essa força, ou seja, entendendo que toda escrita, ainda que de si, é uma ficção, que se escreve melhor. É jogando o jogo de escrever bem que se dá vida a grandes histórias.
Leia, estude, escreva, experimente, tensione… Jogue o jogo. É o que a gente precisa para escrever melhor. Ainda que esse final tenha ficado meio coach, acredite em mim. E em si escrevendo.
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Com quais recursos fazemos esse jogo? Como nos libertamos do medo de falhar no “relato” para fazer uma “ficção” poderosa e crível?
É o que vamos estudar em profundidade no curso você, cronista, que começa na próxima segunda-feira, dia 12. Ainda dá tempo de participar.
A crônica é uma grande professora desse jogo. Ela nos ensina a usar a nossa própria história, as memórias, o cotidiano, as dores e as paixões para contar boas histórias. Aprenderemos técnicas de estilo, concisão e observação necessárias para que o seu leitor acredite naquilo que você está inventando, mesmo que pareça a sua vida.
As inscrições estão abertas! É o seu momento de jogar o jogo da fé e desenvolver sua escrita literária.
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Besos,
Luca Brandão



Excelente! A Conceição Evaristo também diz isso em Becos da Memória sobre todo acontecimento só existe no instante em que está ocorrendo. Todo resto é uma tentativa de contar; é uma ficção.
Nossa é um alívio imenso, saber que o que se conta, é um relato parcialmente feito de escolhas verdadeira sob a ótica a de quem as escreve. Fiz seu curso de Crônicas ano passado e foi uma delícia poder participar e te ouvir, esse ano quero praticar e criar incansavelmente relatos parciais da minha vivência. Ah! A dica de escrever todo dia como um diário, é mágica! Gratidão prof! 🎉🥳🌟