Não sou bom de cama
Do interior #68 Mas sou bom de sonho
Nunca é do nada.
Ainda me lembro da cena toda de quando escrevi o meu maior poema. Foi no dia mais triste da minha vida. Lembro do telefone tocando na tenda cheia de gente; de olhar para o visor e saber exatamente o que vinha; de escutar a voz fraca do meu irmão tentando contar que o pai havia morrido; do nosso choro; de me sentar na praça de Paraty, na FLIP, e pensar no pai. Lembro de ir ao hotel, fazer as malas, entrar num táxi até o Rio de Janeiro e, durante as cinco horas de estrada, escrever o meu mais longo poema.
Nunca é do nada que o poema vem. Quando parece que surge de repente, ele vem de tudo que a gente viveu. Só escrevi esse texto longo por ter vivido uma vida longa com o pai. Foi por saber demais sobre aquele homem que o poema veio inteiro ali, na única hora em que poderia ser feito: quando vi que o pai não ia caber no céu. Ele precisava de um poema para caber.
Outra coisa que me ajudou foi a bagagem. Eu lia, estudava e escrevia poesia há muitos anos. É disso que o poema nasce: da familiaridade com os ritmos, os sons, as memórias, as imagens e as palavras. De tudo que carrego em mim, da técnica ao sentimento. Por isso estudo e escrevo muito: para conseguir capturar o poema quando ele passar por mim.
O poema do pai está no posfácio do meu livro Poemas para respirar debaixo d’água. São quatro páginas de uma ladainha que não termina, que se alonga com o universo da vida dele e muitas repetições. O centro do poema é esse: eu vou fazer o meu maior poema, mesmo que com versos repetidos. Repito “versos de amor” quatro vezes, repito “ladainha” três vezes, uso o quintal onde ele viveu, os amigos, as músicas. Tudo que está ali eu conheço profundamente.
Nunca é do nada. E é sempre uma euforia escrever um poema, ainda que um poema triste.
Em fevereiro, vou falar sobre isso — sobre a escrita poética — num curso especial no mês do carnaval. Vamos ler e estudar textos festivos, celebrativos e graciosos: de Adélia Prado a Elisa Lucinda, de Ferreira Gullar a Manoel de Barros. Vamos entender de onde eles vêm e como vêm. O que o poema tem que outros textos não têm?
A oficina Poesia & Purpurina está com inscrições promocionais abertas, mas terminam em breve. Aproveite para reservar sua vaga hoje. As aulas acontecem na semana anterior ao carnaval e na semana seguinte, com uma pausa no meio para o descanso ou folia.
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Sou bom de sonho.
Pensei em escrever que sou bom de cama, mas essa brincadeira, além de boba, é mentirosa. Que sou bom de sonho é verdade. Desde criança sonho muito, várias vezes por noite. Sei que se comer algo mais pesado antes de deitar, terei uma centena de histórias na madrugada. Quando quero sonhar, é isso que faço.
Gosto de anotar o que vejo enquanto durmo. Durante a escrita do romance Não acorde os monstros, acordei várias vezes no meio da noite com ideias. Muitas não tinham a ver com o livro, eram apenas testes e experimentos. Mas alguns sonhos resolviam capítulos ou melhoravam esquinas do livro. Isso também aconteceu em 2018, com Amores ao Sol. Eu acordava, sentava diante do computador — exatamente onde estou agora, às 03h58 — e começava a registrar o que tinha acabado de viver.



